O proprietário de um comércio de artefatos pirotécnicos, Daniel Rodrigues da Silva, e o funcionário de uma empresa de extintores de incêndio, Gianderson Machado da Silva, foram ouvidos na manhã desta sexta-feira, 3, no júri do caso Kiss. Os dois foram indicados pelo Ministério Público.

Daniel Rodrigues da Silva é proprietário da loja Kaboom, onde teria sido comprado o artefato utilizado pela Banda Gurizada Fandangueira durante a sua apresentação na festa realizada na Boate Kiss, em 27/01/13. O incêndio foi desencadeado a partir do seu acionamento.

Gianderson Machado da Silva prestou serviço para a Boate Kiss fazendo a recarga dos extintores de incêndio por cerca de três anos. Em razão de uma publicação da filha dele em uma rede social, contestada pela defesa do réu Mauro Hoffmann, o Juiz Orlando Faccini Neto determinou que Gianderson passasse de testemunha para a condição de informante, quando de alguma maneira, a testemunha demonstra algum tipo de parcialidade em algum julgamento.

Depoimento de Daniel

O empresário basicamente falou sobre a diferença entre os artefatos pirotécnicos (chuva de prata, sputnik, vela indoor), bem como sua utilização, manuseio e regulamentação. Apesar da compra realizada pelo réu Luciano Bonilha Leão, produtor musical da banda, a testemunha não soube dizer se o produto acionado na festa foi o mesmo comprado na Kaboom.

O primeiro depoimento do terceiro dia de júri do caso Kiss foi marcado por discussão entre a testemunha e a bancada de defesa de Bonilha. Na plateia, pais também se irritaram e deixaram o local.

Sputnik, também conhecido como Árvore de Natal, é um tipo de fogo de artifício para ser utilizado em ambiente externo. Ele é feito de pólvora e alguns produtos químicos, que geram a centelha, sendo sua venda controlada. "Ele produz uma faísca quente, que queima e que pode produzir qualquer tipo de combustão. E exige distância mínima de pessoas e objetos, mesmo em áreas externas. O uso interno não deve ocorrer em hipótese alguma", disse a testemunha.

Vela indoor, que costumava ser usada em garrafas de espumante nas festas, tem chama de cerca de um palmo e um tempo longo de duração. Nela é utilizado o chamado “fogo frio” e, mesmo tendo menor potencial de risco, seu uso exige cuidado.

O empresário explicou também a diferença entre chuva de prata e sputnik. Segundo ele, os dois têm praticamente os mesmos efeitos - ambos geram faíscas quentes. Mas a principal diferença é o tamanho delas (a da primeira é maior).

Outro ponto da inquirição se referiu à venda avulsa desses produtos, que seria proibida, e teria sido realizada pela loja de Daniel.

A defesa do réu Luciano mostrou notas de compras que efetuaram na Kaboom, neste ano, onde compraram fogos fora da caixa. Apresentaram também e-mail onde o estabelecimento informou valores de compras unitárias e na caixa. "Não sei o motivo que a pessoa pediu para usar ele (artefato). Certamente ela deve ter informado ao meu funcionário", respondeu.

De acordo com Daniel, o sputnik é um dos mais baratos do mercado. Na época, a caixa custava em torno de R$ 9 reais. Disse que sempre explica aos clientes a correta utilização dos produtos. Segundo ele, o fabricante instrui que o seu acionamento ocorra a uma distância segura, em torno de dois metros e meio. Sua venda é controlada, sendo o Exército encarregado de fiscalizar depósitos e fabricantes e a Polícia Civil, os comércios de varejo.

O empresário afirmou que o funcionário dele, que realizou a venda ao produtor musical da Gurizada Fandangueira, informou ao comprador que o produto não era adequado para uso interno e ofereceu outro que poderia ser usado no interior da Boate. Bonilha teria optado pelo mais barato. Daniel não soube dizer se outros componentes da banda foram comprar artefatos na loja.

Ele informou que nunca foi na Boate Kiss, nem assistiu aos shows da Banda Gurizada Fandangueira, e que conhecia Bonilha só de vista. E que, quando soube da tragédia, em princípio, não pensou que envolvia um produto vendido na sua loja. Só depois, quando soube que era a banda, que cogitou essa possibilidade.

Daniel informou que o seu estabelecimento possui autorização para estoque de venda e não para armazenamento. Ele foi questionado pela defesa de Bonilha se a loja já havia sido fechada pelas autoridades. A pergunta gerou um princípio de discussão entre a testemunha e os advogados do réu. Daniel não quis responder ao questionamento, mas acabou informando que, em 2015, foi multado por armazenamento inadequado de produto, depois de uma denúncia feita por vizinhos.

Depoimento de Gianderson

Em seguida, foi ouvida outra testemunha de acusação, Gianderson Machado da Silva, que prestou serviço para a Boate Kiss fazendo a recarga anual dos extintores de incêndio. A medida é exigida pelos Bombeiros para concessão de alvará de PPCI.

Gianderson disse que, durante os três anos em que prestou esse serviço, as recargas dos extintores da Kiss foram efetuadas dentro do prazo de vencimento. Suas respostas se limitaram a responder acerca de aspectos técnicos da manutenção dos equipamentos. Ele informou que nunca frequentou festas na Boate Kiss.

O MP mostrou um vídeo com pessoas tentando apagar o incêndio na Boate. Ele perguntou à Gianderson se isso poderia ter sido retardado se fossem utilizados corretamente os extintores de incêndio. Gianderson afirmou que sim, mas provavelmente não teria apagado o fogo quando ele já tivesse se espalhado. Para conter o fogo inicial, Gianderson acredita que três extintores seriam suficientes.

Recordou já ter encontrado extintor violado na Boate. "Se ele foi violado e não foi acionado, pode ser utilizado. Mas é um risco, pois ele pode disparar". Explicou que o número do tubo do extintor é controlado, sendo o mesmo recarregado e devolvido. Pode acontecer de ter defeito de peças dentro da garantia. “O ideal é o cliente verificar e, se houver problema, chamar a empresa para resolver”. O depoimento dele se encerrou às 15h55min.

Depoimento de Pedrinho Bortoluzzi

Pedrinho Antônio Bortoluzzi foi testemunha abonatória de Marcelo de Jesus dos Santos ouvida na tarde desta sexta-feira, 3. Isso significa que ele não falou sobre os fatos (incêndio na Boate Kiss e suas circunstâncias), mas apenas sobre a conduta do réu em sua vida pregressa. Aposentado da magistratura, a testemunha também atuou na área da construção civil. Área em que Marcelo e seu pai trabalharam na colocação de pisos e azulejos e como pedreiro. A parceria durou mais de quatro anos.

– Sempre calmo, tranquilo, excelente profissional – afirmou Bortoluzzi. A testemunha disse que Marcelo e a família são humildes, precisavam trabalhar e que o réu teve dificuldades de conseguir trabalho depois do incêndio na Boate Kiss.

– Marcelo é uma pessoa que, se eu fosse continuar nessa atividade, contrataria sempre. É disciplinado, responsável, respeitoso e preocupado com os colegas –, afirmou. E, como pessoa, disse que é “apaziguador, amigo de todos, bonachão”.

Bortoluzzi afirmou que a tragédia da Kiss mudou a vida de Marcelo, que sofre muito com o que aconteceu. “Ele fala muito pouco sobre isso. O que ele me disse é que ele jamais teria acendido aquele fogo se ele imaginasse o que poderia acontecer”.

Depoimento de ex-barman

A oitiva de Erico Paulus Garcia encerrou o terceiro dia de depoimentos do júri do caso Kiss e também a lista de vítimas arroladas pelo Ministério Público para serem ouvidas em plenário. O jovem foi barman da boate por três anos e ajudou a colocar a espuma que revestia o palco do local.

Erico auxiliou no salvamento de muitas pessoas (cerca de 20 pessoas), retirando-as do interior do prédio. “Conseguimos entrar lá dentro, pegar as pessoas e levar até a porta para que fossem levadas ao hospital”. Ele se emocionou ao lembrar daquela noite, pois também ajudou a levar corpos para os caminhões. Hoje, Erico é policial militar.

Na noite da tragédia, Erico estava próximo do palco, trabalhando no bar, quando viu o vocalista da Banda Gurizada Fandangueira, Marcelo de Jesus dos Santos, apontar para o alto, segurando um artefato pirotécnico, usando uma luva. Ele não sabe como o artefato foi acionado. Segundo a testemunha, o incêndio começou naquele local. Foi alcançado um extintor de incêndio para tentar apagar o fogo, o que não ocorreu. Logo, uma fumaça preta tomou conta do ambiente.

– Vi que eles começaram a recolher os instrumentos e começaram a conversar entre eles – afirmou a testemunha, sobre a atitude dos membros da banda quando o incêndio começou. “Nesse momento, já começava a pingar espuma derretida do teto”.

Erico lembrou que entrou várias vezes na boate para retirar as vítimas e inclusive quebrou a parede da fachada para viabilizar a saída. Bombeiros entraram junto com ele na danceteria, mas Erico disse que ele ia na frente. “Eles jogavam água em direção à pista”. Ele disse que encontrou na rua o sócio da Kiss, Elissandro Callegaro Spohr (Kiko), preocupado com a situação da esposa, que estava grávida e que ele ainda não havia encontrado.

A testemunha relatou que o teto da boate tinha uma camada de gesso e uma de lã de vidro. “Exceto no palco. Eu, Rogério e João (falecidos) colamos espuma nas laterais, no fundo e no teto, a mando do Kiko”. Inicialmente os funcionários reutilizaram restos do material, mas como eram pedaços diferentes e o sócio não havia gostado do resultado, foram retiradas e colocada espuma nova. O motivo da colocação do material seria para possibilitar o isolamento acústico do ambiente.

Sobre as barras de contenção, o ex-funcionário afirmou que foram instaladas na boate para organizar a saída do público. Ele contou que conversou com seguranças sobreviventes e eles disseram que acreditavam se tratar de uma briga e que, por isso, teriam tentado impedir a saída das pessoas que fugiam do incêndio.

Alguns meses antes da tragédia, Kiko pediu que Erico retirasse da boate seis ou sete extintores de incêndio. Segundo Erico, ele deixou os equipamentos “amontoados” na entrada da boate. A testemunha acredita que eles não foram recolocados todos de volta nos seus lugares, pois deu falta de alguns. Também nunca ouviu falar que Elissandro queria retirar os extintores das paredes por questões estéticas.

Em relação às decisões na boate, Erico disse que Mauro nunca deu ordens diretas a ele. Mas, certa vez, Kiko afirmou ao funcionário que recorreria ao sócio para tomar uma decisão acerca de determinado assunto (que ele não lembra qual era). Afirmou que sua relação com Kiko era boa e que ele era um bom patrão.

Os trabalhos prosseguem neste sábado, 4, com o início ocorrido às 9h. Estão previstos os depoimentos da testemunha Alexandre Marques (arrolado pela defesa de Elissandro) e da vítima Maike Ariel dos Santos (indicada pelo Assistente de Acusação).

*Com informações do Tribunal de Justiça do RS