O dia 18 de maio é considerado o Dia Nacional da Luta Antimanicomial, e marca o trabalho de profissionais, usuários/as e familiares direcionado a um tratamento mais humanizado junto à área da Saúde Mental. A principal bandeira levantada, no ano de 1987, foi a de uma sociedade sem manicômios, inspirada nos movimentos da Reforma Psiquiátrica surgidos na Europa, em especial na Itália, ainda na década de 1960, visando melhorar os cuidados junto às pessoas em sofrimento psíquico.

Uma das principais conquistas, neste período, foi a crítica ao enclausuramento, com exercício do cuidado comunitário, em diferentes níveis de atenção. “Esses espaços manicomiais trouxeram muito sofrimento, estigma e isolamento social às pessoas que, literalmente, eram ali depositadas. Muitas passavam o resto de suas vidas nesses espaços. Os tratamentos eram pautados na moralidade, em muitos casos, e não na ciência”, explica a professora Eliane Cadoná, coordenadora do curso de Psicologia da URI-FW.

Comunidade

Além disso, no campo da Saúde Mental, havia historicamente uma crença de que, uma vez em sofrimento psíquico, a pessoa não conseguiria mais viver em comunidade o que, cientificamente falando, não é verdade. Os e as usuárias da saúde mental podem e devem ser tratados junto às suas famílias, no seio de sua comunidade. Ao invés de internações prolongadas e distantes da sociedade, precisam de amparo de toda uma rede de atenção, que inclui Unidades Básicas de Saúde, visitas domiciliares, internações em hospitais e serviços especializados em saúde mental, quando necessário, bem como usufruir serviços junto aos Centros de Atenção Psicossocial (Caps)”, detalha a professora.

Além disso, Eliane reforça a necessidade de que, como qualquer outro ser humano, pessoas em sofrimento psíquico precisam se divertir, estudar, ler, conviver e dar boas risadas com quem amam. Elas também sofrem, vivem fortes emoções, precisam de tudo aquilo que qualquer ser humano necessita, que é viver e ter o direito de estar entre os que amam.

Usuários/as

A professora Eliane esclarece ainda que o termo paciente caiu em desuso para muitos e muitas autoras da área. Atualmente, um dos termos utilizados é “usuário”, que remete a alguém ativo, que busca e usufrui de um conjunto de serviços, pelos quais paga, por meio de impostos. “A pessoa possui o direito de receber um tratamento conforme sua demanda e realidade, seja na unidade de saúde mais próxima de casa, em hospitais, serviços especializados ou Caps. Deve, inclusive, participar do seu plano de tratamento. O manicômio de ontem foi substituído por uma complexa rede de serviços que, dentro dos espaços citados, ofertam tratamento individual, em grupo e ou medicamentoso, e que vai se estruturar conforme as particularidades e necessidades de cada pessoa”.

O papel da Psicologia

A professora da URI-FW, Cláudia Reis Flores observa que a Psicologia, enquanto ciência, norteia-se por preceitos éticos e práticas que facilitem o processo de reflexão crítica. Pauta-se na compreensão da subjetividade e diversidade, dos sujeitos e dos coletivos, primando pela promoção de saúde, prevenção e tratamento na área de Saúde Mental. Com o tempo, a psicologia precisou reinventar-se em suas ações, interagindo com outras áreas do conhecimento, e compreendendo que o e a usuária são sujeitos ativos e coparticipativos na promoção e nos cuidados com sua saúde e de sua comunidade. “A partir de estudos contemporâneos percebeu-se que os currículos universitários necessitavam novos olhares às suas práticas, incluindo práticas alusivas à luta antimanicomial, cuja ação do psicólogo deveria ser mais ativa e contextualizada às demandas e características da comunidade. O profissional integrou-se mais precisamente aos serviços de saúde mental que focam na atenção primária, secundária e terciária, realizando práticas que priorizam os princípios e diretrizes do SUS, que devem assegurar o direito à saúde de todos e de todas”.

Ações do Curso de Psicologia da URI

De acordo com as professoras, o curso de Psicologia da universidade propõe de disciplinas, estudos, práticas de estágio em contextos institucionais e pesquisas que possam aprofundar o conhecimento acerca da diversidade dos sujeitos e características institucionais, primando pela ética e acolhimento às diferenças. Promove debates e rodas de conversa com profissionais inseridos na área da saúde e áreas afins, para ampliar e aprofundar os conhecimentos da academia, compreendendo que o conhecimento se constrói na convivência e na coletividade. Realiza ações antimanicomiais pela valorização da inclusão social, considerando a necessidade de compartilhar diferentes saberes em suas práticas”, observa a professora Cláudia. Ela salienta ainda que, no meio acadêmico, os e as profissionais, ao estarem trabalhando na comunidade, precisam interagir com equipes multiprofissionais, assim como facilitar a conscientização acerca das diferenças, preconceitos, sofrimento e potencialidades das e dos usuários de saúde.

Ainda, de acordo com a professora Cláudia, o Curso de Psicologia da URI encoraja práticas de estágio que primam pela escuta empática, humanizada e de aprendizado constante com a comunidade que atende. Além disso, por intermédio das e dos próprios usuários e dos serviços de saúde, na relação com as e os estudantes e professoras, promove diálogos, reflexões e construção de conhecimentos, numa ação coletiva e crítica.

Para a comunidade

A URI-FW mantém em seu campus a Clínica Escola, com práticas de estágio em Psicologia que objetivam o atendimento comunitário. Ali, são realizadas avaliações psicológicas e psicoterapia, a partir de encaminhamentos de escolas, de outras organizações de saúde e de trabalho e pela busca espontânea. Além disso, em parceria com instituições de saúde, de ensino, empresas públicas e privadas, o curso de Psicologia presta serviço de assessoria, através de práticas de estágio.

Distanciamento social

Neste período de distanciamento social, a universidade tem respeitado os limites impostos pelas consequências da Covid-19, protegendo professores/as e seus/as acadêmicos/as dos riscos de contágio, suspendendo algumas práticas de estágio. Outras já estão sendo reiniciadas, considerando as devidas precauções e cuidados necessários. Houve também a construção de projetos alternativos, com vistas a ampliar o conhecimento adquirido em sala de aula, por intermédio de ações diferenciadas junto à comunidade local e regional, envolvendo professores/as, acadêmicos/as e equipe técnica, que serão anunciadas em breve.

Sobre as profissionais

- Eliane Cadoná é doutora em Psicologia, mestre em Psicologia Social, especialista em Psicologia Clínica Ampliada, professora e coordenadora do curso de Psicologia da URI-FW:

- Cláudia Reis Flores é mestre em Psicologia Clínica, especialista em Psicologia Organizacional e do Trabalho e professora da URI-FW: