Os médicos que chegaram ao Brasil no terceiro e quarto ciclo do programa Mais Médicos completaram um ano na região e já estão adaptados aos costumes e a população acostumada com eles, especialmente com o portunhol ouvido nos corredores dos postos de saúde. 

Ainda restam dois anos de convênio e os profissionais já consideram a experiência muito boa tanto na questão pessoal e também para a saúde do país. Em Frederico Westphalen, são cinco médicos estrangeiros, uma argentina e quatro cubanas que atuam nos programas Estratégias Saúde da Família (ESFs) do Centro, Aparecida, Santo Antônio e São Francisco de Paula. 

Moradora do bairro São Francisco de Paula, Jandira Prestes da Rosa, elogia o atendimento recebido pelas médicas cubanas. “Elas nos fazem muitas perguntas e também escutam o que a gente tem para dizer. Parece que tem todo o tempo do mundo quando você entra no consultório. Elas explicam como é a doença e o que você pode fazer para amenizar os sintomas”, disse.

A principal diferença percebida pelas médicas desde que iniciaram suas atividades é a aproximação dos pacientes e o controle de doenças que antes eram frequentes nos atendimentos. O trabalho que vem sendo realizado na prevenção e orientação dos pacientes, diminui a fila nos postos e a solicitação de exames. 

De acordo com o último relatório do programa divulgado pela Secretaria Estadual da Saúde (SES), nos municípios de abrangência da 15ª e 19ª Coordenadorias Regionais de Saúde (CRSs) já são 56 médicos atuando em 37 municípios.

Para o prefeito de Frederico Westphalen, Roberto Felin Junior, as dificuldades iniciais com o idioma estão sendo superadas e o melhor de tudo é que a população vem recebendo o atendimento necessário. “Essa atenção especial dos médicos resulta na melhora dos pacientes”.

A Argentina e os remédios naturais

Diana Valeria Seidl é argentina da província de Missiones e veio para o Brasil com o esposo e o filho mais novo, o que auxiliou em sua adaptação. Inicialmente ela trabalhou com os grupos de saúde do interior, o que considerou muito positivo. Hoje está no bairro Aparecida. “Os médicos geralmente não gostam muito de remédios caseiros, de ervas naturais, porém eu gosto muito delas e acho que se completam ervas e medicamentos, isso me aproximou mais da população”, disse a médica. 

Sobre a decisão de vir trabalhar em outro país, mesmo sem nunca ter saído da Argentina, Diana destacou que tinha amigos e colegas que já tinham vindo ao Brasil e gostaram muito então resolveu ter a experiência.

 

A medicina preventiva de Cuba

As médicas cubanas, Deyse Ricardo Jorge, Maria Silene Salado Borges, Yesenia Carlise Medina e Yilan Del Rio Martinez também já se sentem em casa em Frederico Westphalen. E tem como lema o atendimento humanizado e preventivo, por isso procuram conversar muito com os pacientes, coletando informações e orientando os procedimentos e cuidados com o próprio corpo.

Yesenia Carlise Medina

Em Frederico Westphalen a mais de um ano, a doutora Medina como é conhecida, está muito feliz com o trabalho que vem sendo realizado e adora a cidade especialmente por ser muito tranquila e diferente de quando esteve na Venezuela, por exemplo. 

A médica atende hoje, em média 50 pessoas no Posto Central. Anteriormente ela trabalhou no posto de saúde do Aparecida. “O nosso atendimento é um pouco diferente. Trabalhamos mais de forma preventiva que curativa, falamos mais com o paciente para que compreenda a doença como uma forma de prevenir, para que a doença não se complique e acredito ser nosso diferencial, porque as pessoas sempre voltam”, afirmou Yesenia.

Filha única, Yesenia se comunica com os pais todos os dias pela Internet, porém disse sentir falta deles. “Já estamos no segundo ano, dos três que foram firmados em contrato, mas se o programa for prorrogado como se fala talvez eu fique porque estou gostando muito de estar aqui”, disse.

Yilán Del Rio Martinez

Especializada em oftalmologia, Yilán lembra que está no Brasil a um ano e dois meses. Ela disse que o Brasil é diferente do que ouvia dizer. Ela sabia que no Brasil só havia belas paisagem, samba e gente bonita, mas para sua surpresa foi trabalhar em uma bairro considerado um dos mais pobres da cidade. “Quando me falaram que eu trabalharia em um dos bairros mais pobres da cidade fiquei um pouco assustada, não sabia o que me esperava. Mas fui muito bem recebida e estou muito feliz de estar aqui no São Francisco, mas pretendo voltar para casa, para minha família”, revelou a médica.

Hoje, o tempo da médica está dividido em consultas, visitas domiciliares, atendimento de urgências e emergências e as reuniões com os grupos. “Lembro quando cheguei no primeiro encontro do grupo de saúde no bairro, havia muitas pessoas com pressão alta e baixa e, com diabete elevada, então comecei a falar da importância de controlar a doença através da alimentação, exercícios e prevenção com exames periódicos. Felizmente em um mês eu já tive resultados positivos, todos estavam com a pressão controlada”, disse.

Yilán se orgulha ainda de terem modificado o atendimento no posto de saúde que agora tem atendimentos de emergência, com pequenas cirurgias e de ter diminuído o uso de remédios controlados sem necessidade e também a redução na solicitação de exames trabalhando o psico-social dos pacientes. “Desde que estou aqui, os encaminhamentos para os hospitais e especialistas diminuíram muito”, finalizou.

Maria Silene Salado Borges

A tranquilidade e a simplicidade do povo de Frederico encantou Maria, que considerou o inverno e o idioma, as únicas dificuldades encontradas no início da adaptação. “As doenças daqui são muito semelhantes as encontradas em Cuba, então não foi difícil diagnosticar muito menos remediar o paciente. Porém uma coisa eu consegui mudar, fazer com que o paciente interagisse com o médico e ficasse a um quilometro de distância de mim como se tivesse uma doença grave”, afirmou sorrindo Maria, que hoje atende no posto do bairro Santo Antônio.

O que a médica pretende trabalhar a partir de agora é fazer com que as pessoas vejam sua saúde como prioridade. “Em Cuba, estar bem é prioridade e aqui a prioridade é o trabalho, o estudo e, a saúde fica em último lugar, como se você não precisasse dela para todo o resto. É algo que acontece aos poucos mas, vamos conseguir”, destacou.

Maria ressaltou ainda que o Mais Médicos beneficia os médicos e também o país de Cuba. São 75 países atendidos por profissionais cubanos que levam renda para investir em saúde, educação e cultura principalmente. “Todos ficam beneficiados pelo serviço que prestamos”.

Deyse Ricardo Jorge

A última a chegar na cidade Deyse faz parte do quarto ciclo do programa, trabalhou inicialmente em Osvaldo Cruz e hoje está no ESF 1 do bairro São Francisco de Paula. A médica deixou marido e filho em Cuba. Com mais de 20 anos atuando como médica, Deyse também já esteve na missão médica na Venezuela. “Gostei muito do Brasil, me sinto bem aqui, mas apesar de morar sozinha as pessoas me tratam muito bem, são atenciosas e carinhosas, o que nos deixa a vontade”.

- Gosto muito do trabalho de atender as pessoas esse é uma das coisas que mais gosto aqui, porém sinto muita falta da minha família. As férias foram muito boas, fiquei com meus familiares e confesso que eu precisava delas, precisava ir um pouco para casa –, enfatizou a médica.

Nesse um ano aqui em Frederico Deyse garante que já considera a missão Mais Médicos muito exitosa.

Heloise Santi geral@folhadonoroeste.com.br