No último dia 23 de julho, o pequeno frederiquense Rhavi de Souza Correa completou seu primeiro mês de vida. Quem vê o bebê dormindo tranquilamente no colo da mãe Elizabete de Souza ou do pai, Clayton Braga Correa, jamais pensaria que mesmo tão novinho, ele já enfrentou uma grande batalha pela própria vida. A luta da família pela sobrevivência do Rhavi iniciou poucos dias após o seu nascimento, no Hospital Divina Providência, mas promete se tornar bem mais duradoura e além das fronteiras do município.

Em virtude de complicações após o nascimento, a criança, que apresentava alto risco de morte, precisava de internação com urgência em UTI Neonatal, o que necessitou a intervenção da Defensoria Pública de Frederico Westphalen, representada, no caso, pelo defensor público Thiago Oro Caum. Na noite de 25 de junho, o defensor público ajuizou uma ação judicial, que resultou em liminar, garantindo a transferência para Porto Alegre e internação na UTI Neo Natal do Hospital Conceição, em Porto Alegre.

– Não sabemos se houve problemas no momento da aspiração, quando o Rhavi nasceu, ou se foi uma bactéria. Mas ele estava com uma infecção gravíssima. No dia 25, ele teve alta do HDP, mas observamos que quando ele mamou, logo vomitou, além que saía leite pelo nariz. Fomos novamente para o hospital e o plantonista chamou um pediatra. Foi ele que aspirou o Rhavi e pediu imediata internação na UTI. O diagnóstico provável era obstrução intestinal – , explica o pai, Clayton Correa.

A luta

Foi nesse ponto que começou a “guerra”, como diz Clayton, para conseguir uma vaga em UTI Neonatal. “Só conseguimos devido ao trabalho da coordenadora de Saúde, Marly Vendruscolo, e do defensor público Dr. Thiago. A ação estipulava um prazo máximo de 12 horas para o Estado providenciar a vaga, porém, somente após 14h, a situação foi resolvida. Inicialmente, queriam que esperássemos o Samu vir de Passo Fundo, mas em virtude da gravidade, a UNIAIR – Táxi Aéreo, nos buscou. Além dos pilotos, a aeronave tinha médico e enfermeiro. Se houvesse mais demora, o Rhavi não teria sobrevivido –, acrescenta Correa.

Vídeos mostram como foi emocionante a chegada do pequeno Rhavi, na capital. Sirenes ligadas abriam caminho pelas avenidas para que ele pudesse receber o atendimento o mais breve possível. Já no Hospital Conceição, com a equipe de prontidão, ele foi encaminhado diretamente para exames de raio-x e de sangue. “O cirurgião pediátrico e o médico plantonista da UTI Neo nos esperavam. Eles avaliaram os exames e a obstrução intestinal foi descartada. O que apareceu foi uma grave bactéria, então, ele começou o tratamento, e lá ficou 10 dias internado. Em virtude do esforço, ficou com um sopro no coração, mas com os cuidados, ao longo do tempo, ele deve se recuperar”, detalha.

Mobilização pela UTI Neonatal

Para Correa, esse é um problema muito grave, que envolve todos as esferas governamentais, e que não pode mais esperar. “Ter uma UTI Neonatal e uma UTI pediátrica em Frederico Westphalen ou em um município próximo é para ontem. Nós conseguimos salvar o Rhavi, mas quantos não conseguem? A UTI Neonatal mais próxima fica em Passo Fundo, distante quase 200 Km. Além da distância, há a questão da falta de vagas”, cobrou, em seu pronunciamento na Câmara de Vereadores, na última terça-feira, 26, no espaço Tribuna Popular, que foi concedido pelos vereadores para que ele pudesse apresentar as suas considerações.

A falta de leitos em UTI para crianças também é um problema que a região enfrenta. Logo depois da situação do Rhavi, uma outra criança frederiquense precisava de internação e, sem disponibilidade de leitos no Rio Grande do Sul, novamente por ação judicial, o Estado foi obrigado a subsidiar leito, em caráter particular, na cidade de Chapecó, em Santa Catarina. “Por isso, não vou abandonar essa causa e vou fazer uma grande mobilização. Vamos criar a Associação dos Pais por UTI Neo Natal e Pediátrica do Rio Grande do Sul. Nossas UTIs estão na UTI”, cobrou.

Durante a Tribuna Popular, também foi divulgado, um vídeo, produzido por Correa para mostrar toda a trajetória do Rhavi, desde o nascimento, até sua internação na UTI Neonatal do Hospital Conceição, que culminou com a sua recuperação. Para assistir, basta acessar o código QR nesta página.

Moção de apoio

O tema, que ganhou repercussão e apoio das autoridades, resultou na aprovação da Moção de Apoio nº 02/2022, da Câmara de Vereadores de Frederico Westphalen, pela instalação de uma UTI Neonatal e UTI pediátrica para atender em um raio de até 100 Km. O texto foi aprovado, por unanimidade, pelos vereadores.

Segundo o vereador Jorge Alan de Souza, que também é médico, e representou a bancada do PSDB, o Brasil tem um déficit de 28% de leitos de UTI Neonatal. “São 3.300 leitos de UTI Neonatal faltando no país, sem contar de UTI pediátrica. Temos apenas 1,5 leito para cada 1.000 nascidos, enquanto deveríamos ter 4 leitos para cada 1.000 nascimentos. A cada hora, 40 prematuros nascem no Brasil, são mais de 900 prematuros que nascem por dia no país. Essa é uma luta para ontem, é urgente”, avaliou.

A vereadora Aline Caeran (Progressistas), salientou a importância do SUS enquanto sistema de saúde pública, mas considerou a sua ineficiência, por vezes, na prática. “Precisamos valorizar a atuação conjunta da 2ª CRS, da Defensoria Pública e do Judiciário no caso do Rhavi, e nos demais casos que ocorrem, pois recentemente, mais uma criança necessitou de leito de UTI e só foi possível vaga em Chapecó, após ação judicial”. O trabalho dos órgão também foi evidenciado na fala do presidente da Câmara, Leandro Mazzutti (PDT).

Da bancada do MDB, o vereador Panossinho, lembrou de toda a trajetória para início das atividades da UTI do HDP. “O credenciamento da UTI, em 2019, foi um avanço. Quanto à UTI Neonatal e Pediátrica, o HPR deverá ter, mas não sabemos a partir de quando. Hoje, as principais dificuldades para instalação no HDP seriam espaço físico e profissionais para atuar na unidade.