Fazendo a diferença

Adrieli ingressou na primeira turma de Engenharia Elétrica da Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões (URI), em Frederico Westphalen, na virada do ano de 2011. Ela foi uma das quatro mulheres do curso com quase 60 homens que escolheu a Engenharia Elétrica como profissão. “Quando ia começar a graduação liguei na URI e perguntei: mulher pode fazer?! Tinham só quatro mulheres”, conta. 

O cenário mostra a diferença discrepante da presença feminina na área, mas que, por fim, vem crescendo a cada ano. Das quatro mulheres, Adriele foi a única que conseguiu se formar em cinco anos, que é o tempo de duração do curso. Em 2019, menos de 10% dos acadêmicos do curso de Engenharia Elétrica são do sexo feminino. Levando em consideração um contexto geral, de acordo com o Conselho Regional de Engenharia e Agronomia (CREA), no Rio Grande do Sul apenas 14% dos profissionais registrados são mulheres.

Logo no início da formação, a jovem buscou uma oportunidade de conhecimento na prática, integrando o time do Cantarelli Engenharia, empresa de projetos elétricos. Lá, conseguiu associar a graduação com a realidade do mercado de trabalho, permanecendo por cinco anos.

 A oportunidade conquistada já foi um exemplo da capacidade da mulher determinada que corre atrás dos seus objetivos. Porém, dentro do espaço amplamente masculino que representava a turma do curso, ela sentia a cobrança da escolha da profissão, apenas por ser mulher.

— Eu sentia como se precisasse estudar mais, fazer mais para mostrar que eu tinha a mesma capacidade dos meus colegas. Era como se eu precisasse falar “calma, eu to aqui, eu consigo também”—, relembra. 

Antes mesmo de estar formada, conseguiu uma vaga para realizar mestrado na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). “Percebi que para ter outras oportunidades, precisava fazer algo diferente. Descobri o Grupo de Mulheres, enquanto estava lá, fundei o Grupo de Mulheres na Engenharia da UFSM, integrado ao campus de Cachoeira do Sul”, explica. 

A união com outras mulheres engenheiras permitiu que Adrieli criasse uma rede de contatos na profissão, e também encontrasse na outra - que experiencia grande parte dos mesmos problemas que ela -  uma semelhante.

O grupo de Mulheres na Engenharia

A faísca acesa em Santa Maria se espalhou e chegou até Frederico Westphalen. Adrieli assumiu como docente na URI no início deste ano e replicou a ideia do grupo na universidade. Novamente, ela é a única mulher, desta vez, professora no curso. 

O Grupo de Mulheres na Engenharia já conta com mais de 30 participantes das engenharias ofertadas pela instituição: Elétrica e Civil. A intenção é oportunizar espaços de formação, práticas e um vínculo entre mulheres que ocupam o mesmo espaço e, muitas vezes, sequer se conheciam.

— Senti uma necessidade de uma união, de provar para as mulheres que estão ali fora que a gente existe aqui, e para as meninas que estão pensando em ingressar na graduação entendam que não tem nada de masculino no que a gente faz. Tem espaço para elas e a gente está esperando aqui! Eu me senti no dever de mostrar para essas meninas que elas têm oportunidades, e assim gerar essas oportunidades para elas—, compartilha.

O grupo contará com cargos de liderança para que as mulheres vivenciem, já dentro da universidade, a realidade do mercado de trabalho. As participantes irão desenvolver projetos em parceria com diversas instituições, retornando o conhecimento adquiro na URI para a comunidade de Frederico Westphalen e região. 

Outra intenção é realizar ações beneficentes e movimentar o cenário feminino como um todo, nas mais diversas áreas. Uma das iniciativas, por exemplo, é promover oficinas para outras mulheres, com pautas do tipo: como trocar a resistência do chuveiro, como saber se a geladeira está consumindo mais do que deve e por aí vai! São mulheres ensinando e desenvolvendo outras mulheres.

 —O objetivo do grupo é resumido em praticamente quatro palavras: destacar desenvolver, encorajar e unir. A união é um dos principais pontos. Se lá fora elas serão amigas ou não, isso não importa. Aqui dentro elas precisam se respeitar, entender a outra e não julgar—, explica Adrieli. 

União essa que reafirma a vontade da igualdade. Igualdade entre homens e mulheres, em todos os âmbitos, sem distinções de gênero, raça. Sem distinção salarial. “A gente quer colocar elas em destaque, que tenham visibilidade, para que as empresas também enxerguem-as”, conta a engenheira que, mais que uma professora, se tornou colega e amigas das acadêmicas. 

— Precisamos lembrar que antes de sermos engenheiras, somos mulheres. Então, que a gente busque maneiras de desenvolver e evidenciar todas elas! —, finalizou Adrieli. 

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