O parlamento gaúcho está preocupado com quais serão os reflexos que a pandemia deixará em nosso cotidiano depois que tudo isso passar. A saúde financeira é importante, mas a saúde mental, se não for levada a sério, também causará danos irreparáveis a própria economia do Rio Grande do Sul. É o que debate Tiago Simon, deputado estadual do MDB/RS, que possui em seu sangue a indignação com as injustiças e com os rumos da atual política, o que foi herdado de seu pai Pedro Simon – ex-governador e senador. Durante entrevista exclusiva aos veículos do Complexo Luz e Alegria, Tiago Simon, destaca seu trabalho na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) - na qual é presidente -, da apreensão com a saúde mental da comunidade gaúcha durante e pós-pandemia, além de criticas ao Governo do Estado por privatizar a Corsan. O parlamentar se absteve de votar a PEC 280, que foi aprovada em 2º turno em plenário, na AL, na terça, 1º.

FOLHA: Foste eleito como presidente da CCJ recentemente. Como está sendo presidir a comissão mais importante do Estado?

Tiago Simon: Assumir a presidência da CCJ é uma grande responsabilidade. A CCJ tem um papel importante em todo o Executivo gaúcho, pois antes de passar por qualquer outra comissão, passa pelo crivo de análise da constitucionalidade e da legalidade. Se determinado projeto estiver de acordo, terá o nosso parecer após julgamento de todos os membros da comissão. Somente com o nosso parecer, ele terá sequência para sua aprovação.

FOLHA: Um de seus projetos de maior destaque na CCJ é cuidar da saúde mental das pessoas pós-pandemia. Como vocês estão se mobilizando quanto a isso?

Tiago Simon: Essa foi uma iniciativa que eu tive na Comissão de Saúde, onde fiz uma audiência pública para discutir a saúde mental. Ou seja, nós estamos numa crise de saúde pública extremamente grave na qual morreram quase 30 mil pessoas no RS e quase 500 mil em todo o Brasil. Um aspecto que não vinha sendo debatido era esse do sofrimento psíquico que a pandemia vem causando na saúde mental da comunidade gaúcha. Isso é muito significativo, pois o impacto que o medo, depressão de ansiedade de estresse pós-traumático com uma série de fobias, infelizmente, trazendo um efeito de pós-guerra, da população que sobreviveu. O medo acaba se transformaram em uma fobia, que é um elemento patológico que precisa ser tratado. Com a pandemia, esses transtornos aumentaram muito. Então, nós reunimos vários profissionais renomados que prestaram depoimentos preocupantes porque nós não possuímos uma estrutura que dê suporte a essas pessoas que foram mentalmente afetadas pela pandemia. Com esses encontros iremos apontar caminhos para ajudar o povo gaúcho a superar esse momento tão difícil.

FOLHA: Qual a tua opinião sobre o início “legal” da imunização dos professores, após esse embate entre STF X governo?

Tiago Simon: As entidades precisam se organizar, precisam ser mais efetivas, pois perdemos muito tempo nessa pandemia. Os municípios iniciaram a vacinação dos professores e foram interpelados pelo Ministério Público. Tinha que ‘deixar vacinar’. No meu entendimento, a imunização dos profissionais da educação é fundamental. Vivemos uma situação difícil, mas por outro lado, vimos muitos sindicatos como o Cpers, atrapalhando à volta as aulas, fazendo o Rio Grande do Sul e o Brasil amargar uma posição tão triste que é um ano sem aulas presenciais. Vou pegar o exemplo na Europa, as aulas paralisaram por dois meses. Muito antes da vacinação, os profissionais já estavam em sala de aula. É legítimo e necessário que os professores sejam os primeiros a serem vacinados e as escolas serem as últimas a fechar.

FOLHA: Se politizou demais a pandemia e por isso estamos pagando ‘essa conta’ altíssima?

Tiago Simon: Sem dúvida! O Brasil vive um momento de extrema radicalização na política, um extremo ideológico que vive uma guerra política muito violenta que não ajuda, não soma para o Brasil. Nós precisamos realmente de um ambiente que olhe para as necessidades reais das pessoas dando mais segurança, alimentação, emprego, volta às aulas. É isso que nós precisamos. Não precisamos de quanto ‘pior, melhor’. Obviamente, há criticas ao governo federal, a postura do presidente (Jair Bolsonaro), que poderia ter um comportamento mais responsável, mas também não adianta querer fazer ‘o quanto pior melhor’, querer destruir tudo. Como essa CPI (da Covid-19 no Senado) que, nitidamente, está sendo utilizada como um palanque eleitoral.

FOLHA: Sobre a PEC 280, Tiago Simon. É o momento de privatizar Corsan, Banrisul e Procergs, em meio a maior crise sanitária brasileira?

Tiago Simon: Eu votei a favor da CEEE e CRM, sim! Foram companhias que sofreram por má gestão, principalmente a CEEE, e sua privatização foi importante. Agora, o caso da Corsan, me parece um pouco mais importante. É uma companhia pública que pode ter ganhos de eficiência. O que me preocupa é a forma precária como está se propondo essa privação, em pouquíssimo tempo, na área mais complexa de todas que é a água e saneamento. Vários municípios gaúchos já privatizaram sua água e acabaram encarecendo seus serviços. Não está tendo essa discussão necessária e me parece que o Governo do Estado não está pensando na melhoria do serviço público. Então, da forma que está sendo feita, vejo muita insegurança. Vejo o governo do RS mais preocupado em colocar o dinheiro no caixa e nas próximas eleições do que tentar um plano público de investimentos que possa expandir o acesso ao saneamento. Possuímos de 80% a 90% de pessoas que possuem acesso à água potável. A questão mais importante é o saneamento, que 67% dos gaúchos não têm acesso a esse bem básico. Nós não podemos aceitar esse quadro. Precisamos discutir um projeto que possa expandir, com tempo, com prazo a questão da universalização do saneamento básico no RS. Não sou massa de manobra para simplesmente votar num projeto político. Quero pensar em um processo que sustente a questão hídrica e de saneamento básico para população do Rio Grande do Sul.