O modo como o futebol vem sendo gerenciado no Estado passou a ser discutido com muito mais frequência com a suspensão das competições no Rio Grande do Sul. São vários os pilares que sustentam o esporte mais rentável do país e que agora, são expostos sob uma nova ótica por profissionais que estão envolvidos no futebol. Um grupo de treinadores gaúchos estão à frente da discussão para que vários segmentos sejam qualificados visando um esporte melhor.

Fabiano Daitx (ex-Glória), Paulo Porto (ex-Passo Fundo), Fabiano Borba (ex-Tupi) e Cristian Souza são os profissionais que buscam o debate com aqueles que estão diretamente envolvidos com o futebol no interior do Rio Grande do Sul. Cristian Souza concedeu uma entrevista exclusiva ao jornal Folha do Noroeste, por telefone, e pontuou quais são os objetivos do grupo para que o futebol do interior não termine. Confira os principais temas da conversa:

Problemas antes da pandemia?

“Começamos a conversar e nos demos conta que o problema do calendário não é só na época de pandemia. A pandemia só aflorou a dificuldade. Começamos a pesquisar e ir a fundo, vendo estatísticas, com ajuda de outras comissões técnicas, para ver quanto tempo nossos times ficavam em atividade, quantos jogos no ano e começamos a nos assustar, é pior do que falávamos informalmente. Para ter uma ideia, a média de jogo dos times do interior gaúcho é de 14 partidas do ano. O tempo de atividades das equipes não passa de 4 meses ao ano também”.

Como está o diálogo?

“Jogadores vieram todos para o debate no começo, com preparadores físicos, treinadores. Levamos também aos sindicatos. Fizemos uma reunião em Porto Alegre com sindicato dos jogadores, treinadores, imprensa e todo mundo vendo as dificuldades. Levamos agora aos dirigentes também, até ter uma oportunidade com a federação e paralelo a isso estamos construindo um documento. Não estamos dizendo que nós temos a solução e dizendo que a nossa ideia é a verdadeira, sabemos que o problema é muito complexo. Queremos criar uma discussão e enxergamos como fórum principal a FGF. Ela teria que ser a principal incentivadora, a fomentadora do futebol gaúcho, porque sem clube, não tem porque ter federação”. 

Muito além do calendário

“Tudo passa pela gestão, a nossa discussão vai bem além do calendário, chega na viabilidade dos clubes hoje. A viabilidade hoje é ter formação, ter escolinhas, ter a comunidade integrada, pessoas frequentando o clube. Num trabalho de médio prazo colocar jogadores no profissional, e a capacidade também de, em 3 ou 4 anos, vender jogador, baratear a folha profissional, jogador identificado com o clube”. 

Não dá para formar!

“Como é que eu vou formar jogador se eu tenho 12 jogos no ano. Como eu, treinador, vou oportunizar um menino jovem? Vou utilizar um centroavante de 18, 19 anos ou o Zulu? Vou ter que usar o Zulu, não vou ter tempo de oportunizar o jogador jovem e cada jogo vale muito para o profissional e para o clube. Tu perde dois jogos ou tu perde o emprego ou o clube não tem mais chances de classificação. Entramos num círculo vicioso. Muitos clubes estão trabalhando 2 ou 3 meses do ano e o resto do ano ficam fechados, essa é o modelo de gestão dos nossos clubes”. 

Quem está preocupado com o debate?

“São os funcionários, quem depende disso, a imprensa, jogadores, técnicos e a gente não vê por parte diretiva, tanto dos clubes, quanto da federação, uma vontade de querer falar sobre isso. Queremos propor a discussão, o diálogo, e encontrar uma saída. Da forma que está indo, não temos a menor dúvida, vai terminar o futebol do interior. Vai se resumir em assistir a Grêmio e Inter, dupla Caju e Brapel”. 

Tá, mas e o calendário?

“Temos uma ideia de propor uma Copinha mais atraente, onde as vagas em divisões nacionais sejam distribuídas de forma mais atraente. Hoje temos seis vagas em competições nacionais, temos três para a Copa do Brasil mais as três da Série D. A série D se tornou mais atraente. Com 14 jogos fica mais fácil buscar patrocínio, as rádios da região podem buscar também, porque tem calendário. A copa do Brasil, só na largada é R$ 500 mil, podendo virar R$ 1 milhão se ganhar o jogo. Uma das nossas ideias é passar todas essas vagas para a competição do segundo semestre, em confrontos regionalizados com os clássicos. Pensamos nela como uma Supercopa, até para poder tentar vender o nome da competição”.

O futuro é a base!

“O programa Pró-esporte está caindo de maduro, inclusive tem dinheiro parado, que ninguém vai fazer projetos para buscar. Temos algumas exceções e todas cidades tem grandes empresas que podem destinar parte do seu imposto para isso. É algo que não sai da empresa, sai do governo. O Pró-esporte é um belo patrocinador do interior, mas a FGF precisa ajudar, ela tem que criar e viabilizar competições, tornar elas mais baratas. Num jogo de juvenil custa mais de R$ 5 mil para fazer jogos em casa. É muito caro se fazer futebol de base. Também propomos as partidas preliminares antes do profissional”.

Próximos passos

“Foi feita uma primeira reunião com membros da região de Passo Fundo, Erechim, Marau, Vale do Taquari. Queremos ouvir as pessoas, dirigentes, todo mundo que quiser colaborar, trazer ideias, sugestões, até o momento em que a federação nos chamar, ou não. Se não nos chamar, paciência, vamos seguir falando sobre o problema”. 

Vamos falar sobre o problema!

“O que estou vendo hoje, e é uma opinião minha, é um conformismo, da FGF e dos dirigentes dos nossos clubes. Para eles está bacana fazer um campeonato de três meses e só. Os que pegam o dinheiro da federação, da Série A estão mais conformados ainda. Possivelmente, ano que vem seja o último da RBS. O contrato deve acabar no final do campeonato do ano que vem, e já manifestou que vai cancelar com os estaduais, e só vai ficar com o campeonato paulista”.