Estamos vivendo uma era de exposição! As redes sociais que o digam. Compartilhamos nossa rotina, mesmo que involuntariamente, ao postarmos aquele café com as amigas, a nova compra adquirida ou uma selfie naquele dia que a produção deu certo!

As redes sociais, por mais que tenham seus problemas, quando usadas com sabedoria se tornaram uma ferramenta potente para sustentar debates e evidenciar lutas com causas verdadeiras! Foi ao postar um registro, despretensiosamente em seu Instagram, que Leticia Andrighe Colombo, frederiquense de 22 anos, que já foi colunista do Caderno Bella, percebeu como muitas mulheres se enxergavam nela!

Letícia publicou algumas fotos de biquíni, em uma praia, sem alterações ou fotoshop. Apenas ela, em sua essência, com o corpo de uma mulher real. A atitude soou como uma vitória para as seguidoras que acompanham a estudante de moda pelo Instagram. Leticia recebeu mensagen parabenizando-a pela coragem sendo, que, ela apenas tinha feito o mesmo que diversas celebridades que acompanhamos, fazem todos os dias nas redes sociais.

A diferença é que, Letícia, como disse, tem um corpo real! De uma mulher real, que precisa acordar cedo todos os dias, conciliar a vida doméstica com a pessoal, profissional e social. Se você também precisa fazer isso, sabe que, muitas vezes, o tempo para acordar, tomar aquele suco e ir malhar realmente não existe (por mais fácil que as influenciadoras digitais façam a tarefa parecer nas redes sociais).

Ao ver a proporção que as fotos tinham tomado, junto dos comentários de amigos e até pessoas não tão próximas sobre como a jovem tinha engordado, ela decidiu se posicionar. Tudo isso somado ao depoimento de uma seguidora de que o namorado tinha terminado o relacionamento alegando que ela estava gorda. Postou então uma outra foto, com um relato que rendeu mais de 8 mil curtidas, 2 mil compartilhamentos e muitos comentários!
"No fim de semana pude refletir um pouco sobre minha vida e todas as conquistas que estão acontecendo nos últimos dois anos! Foi quando recebi uma mensagem de uma seguidora que assistiu meus destaques e me contou que o namorado acabou com ela porque ele estava achando ela ‘gorda’, e não sentia mais atração por ela, e quando li isso, achei necessário expor aqui minha opinião, até porque tenho 28 mil seguidores e alguém pode se identificar.
Há quatro anos atrás eu usava 36/38, eu pensava que eu era feliz, mas eu era totalmente dependente da minha mãe e vivia pelo meu jeans 38... calma, ainda não acabei. Hoje eu uso 42/44 moro sozinha e me sustento, estou me formando, de carteira assinada em um trabalho fantástico, fui viajar depois de cinco anos sem férias, com meu dinheiro e vou fazer a carteira de motorista agora, com 22 anos. Eu perdi o corpo lindo que eu tinha e eu já me culpei muito por isso. Foi onde eu percebi que eu precisava deixar algumas coisas de lado para conseguir conquistar outras, foi onde eu achei necessidade de mostrar o outro lado da moeda e poder falar pra você que se culpa por não apresentar um corpo ‘padrão’, que NÃO EXISTEM PADRÕES, você é o seu padrão, tudo na vida são fases, se você quer emagrecer mas agora não tem tempo, calma que um dia você vai ter, VIVA UM DIA DE CADA VEZ, você nasceu para brilhar, não deixe que nada nem ninguém apague o SEU brilho, desde quando a atração que alguém tem que sentir precisa ser um jeans 36? ATRAÇÃO é sentir-se atraído pelo que a pessoa é como SER HUMANO!
Tolo é aquela pessoa que fica a vida toda atrás de algo ou alguém sem conseguir ser feliz pelo caminho ou por causa de outras coisas/pessoas. Quem tem que falar que seu corpo tá lindo ou não é VOCÊ, viva POR VOCÊ! Eu sei que muitas pessoas que estão lendo isso ou vendo essa foto agora, estão compartilhando e falando do meu corpo, mas aí nessa foto eu estava feliz, realizada e principalmente ciente de tudo que eu estou vivendo e as fases que estou passando na minha vida.
Atrás de um corpo SEMPRE existe uma grande mulher, independente se ela usa 36 ou 46, somos muito mais isso”, escreveu Letícia.

Quebrando Padrões

O fato se encontra com um debate que está (e que bom que está), cada vez mais em alta. O do "corpo fora dos padrões" e da representatividade! Graciela Fernandes de Almeida de Carvalho, advogada de 38 anos, estampa a capa desta edição junto da irmã Kelly. O corpo das duas não as defini. Mesmo assim elas precisaram, desde a infância, lidar com olhares diferentes por conta de uma característica, que se resume em nada,  diante de tudo o que as duas representam. 

—Quando ingressei na escola chamei a atenção de alguns colegas por ter o cabelo de uma cor diferente. Meu cabelo ruivo, sempre foi chamativo. Desde muito jovens, todos nós somos ensinados sobre o biotipo ideal que nosso corpo, nosso cabelo deve ter. O famoso “padrão de beleza”. Nunca obedeci a um padrão: meu cabelo era diferente, meu corpo era diferente—, conta Graciela. 

Ela conta que muitos comentários e brincadeiras a fizeram duvidar da própria imagem que tinha em relação a ela mesma, dificultando a aceitação quanto ao seu cabelo e suas formas. “Essa situação toda foi uma fase de grandes aprendizados para mim. No começo eu sofri um pouco, mas eu sempre tive muito orgulho da cor do meu cabelo. Com o tempo eu cresci e aprendi a me amar do jeito que sou, a gostar do meu cabelo e do meu corpo, aprendi também que os apelidos maldosos diziam mais respeito sobre como a outra pessoa via o mundo e o diferente, do que sobre mim”, conta ela.

Tudo foi um processo e Graciela precisou aprender a lidar com isso. Se torna ainda mais difícil à medida que somos constantemente bombardeados com propagandas, sempre ilustradas por mulheres definidas como “lindas”, com corpos malhados, cabelos arrumados, tudo em cima. Passamos a acreditar que isso é o que faz sentido e que não for assim, não está correto. 

— Já me critiquei muito e as vezes ainda faço isso, mas é uma rotina constante de aceitação e mudança, até porque, não existem padrões e precisamos entender isso. O Instagram, principalmente, as vezes é um veneno nessa questão de comparação, muitas se veem culpadas por não ter um corpo como as modelos do Instagram, e acabam ficando compulsivas por isso, sendo ruim para saúde física e mental. Hoje, já aceitei o fato de que cada uma tem um estilo de vida e que nunca vamos ser iguais—, diz Letícia Andrighe Colombo, sobre essa questão.

Kelly Fernandes de Almeida de Carvalho, 36 anos, que como a irmã Graci, também é advogada, conta que o corpo dela começou a mudar quando foi diagnosticada portadora de Lúpus e, por conta da medicação, ganhou peso. “No começo eu fazia o tratamento depois emagrecia tudo o que tinha engordado, mas com o tempo fui questionando, do porquê de querer a todo custo, voltar ao ‘corpo ideal’ que eu tinha. Muitas vezes me sentia cansada, ter que lidar com uma doença e ao mesmo tempo corresponder às expectativas dos outros. Isso tudo foi um peso que eu não consegui carregar”, conta.

Com a certeza de que os outros se incomodavam muito mais com seu porte físico do que ela mesma, aos poucos se libertou das amarras dos padrões. “Eu sempre me achei bonita, sempre fui vaidosa. Experimentei os dois lados da moeda, fui magra e gorda e posso afirmar com muita categoria que algumas pessoas vão te amar pelo que você é e outras pessoas vão te odiar exatamente pelo que você é, eu escolhi me amar e deixar que a opinião do outro fique com ele. Hoje sei que existe beleza em todos os padrões”, afirma.

—Muitas vezes o preconceito com o meu corpo veio travestido de preocupação com a saúde, por exemplo, um argumento comum e muito persuasivo. A autocrítica é uma coisa que vai acompanhar todos nós ao longo da nossa vida, mas deve ter um limite. Eu quero ser do jeito que sou, estou bem com a imagem que vejo no espelho e isso pra mim é o mais importante. Graças a Deus que hoje temos mais diversidade na televisão, na moda, nas campanhas publicitárias, nas redes sociais. A inclusão de padrões de beleza diferentes, a discussão dos padrões de beleza inalcançáveis, os debates sobre a democratização da beleza e da liberdade das mulheres, fizeram com que eu abrisse os meus olhos para um novo mundo—, compartilha Graciela.

Marcas Engajadas

A “Estilo Gringa”, marca de roupas da jornalista Milena Wittekind, de 24 anos, de Santo Ângelo, é um exemplo de inclusão e diversidade no cenário da moda. Na última semana a empresa fotografou a sua mais nova coleção de biquínis, ilustrada por mulheres com diferentes estilos de corpos!

A representatividade foi a chave para o processo criativo do ensaio, fotografado pela própria Milena. “Queria trazer a força da mulher, o poder que ela tem dentro de si, que as vezes está escondidinho bem lá dentro, mas com muito apoio, conversas e ver outras mulheres se aceitando, aos poucos o amor próprio ressurge ou nasce”, disse.

— Na Estilo Gringa não vendemos somente roupas, lá é um espaço para falar de aceitação, de autoestima, empoderamento feminino e também empreendedorismo. Sempre foco em como a moda me ajudou a me aceitar. Esse padrão imposto pela sociedade, de que nós mulheres precisamos ter um corpo perfeito, faz com que elas acabam se afastando da moda por não se encaixar nesse padrão—, salienta.

Segundo Milena, é também papel das marcas, revistas e mídias sociais falar sobre o assunto, descontruir um padrão perfeito que, convenhamos, nunca existirá. 

— É papel nosso fazer essa desconstrução, de falar que sim, toda mulher é linda, não importa o tamanho que veste, o número que aparece na balança, na quantia de celulite e estrias que ela tem, na roupa que ela está vestindo—, finaliza.  Quem quiser conhecer mais da marca, pode acessar o perfil do Instagram @estilogringastore