Após um período longo e doloroso de estiagem e seus efeitos, o Rio Grande do Sul vive um novo momento – e mais promissor – na agricultura. Isso porque as chuvas registradas entre os últimos 30 e 60 dias foram imprescindíveis para a recuperação dos níveis de umidade do solo e reposição do lençol freático, bem como dos volumes de riachos, córregos e reservatórios.

Segundo dados da Emater/RS-Ascar Regional de Frederico Westphalen, nos últimos 60 dias foram registrados cerca de 700 milímetros de chuvas na região, trazendo a possibilidade de recuperação das condições de armazenamento de água no solo, justamente o que auxiliar a enfrentar períodos de menor disponibilidade de precipitações.

Preparação

Conforme explica o gerente da Regional da Emater Frederico Westphalen, Luciano Schwerz, com boa parte das lavouras já colhidas, os agricultores estão preparando o solo para o cultivo de cereais de inverno. “Muitos estão realizando a implantação de plantas de cobertura, como é o caso do nabo forrageiro, ervilhaca, dos mix de plantas, que são um conjunto de várias espécies, e tudo isso tem como finalidade melhorar a qualidade do solo através do aporte de maior volume de fitomassa, para que os microrganismos promovam e agreguem à estrutura desse solo”, destaca.

O gerente regional salienta, ainda, que a cobertura é muito importante para a questão do impacto da chuva sobre o solo. “Quando não temos uma proteção, uma palhada boa sobre a superfície do solo, esta chuva que vai incidir sobre ele acaba promovendo uma desagregação superficial e isso leva também, dependendo do volume, a um processo erosivo, algo que a gente tem visto muito nas nossas lavouras, após um período de estiagem. É necessário estar preparado com práticas que levem a uma melhor taxa de infiltração de água no solo quando o reabastecimento hídrico aconteça”.

Aumento de área

Quanto às culturas de inverno há uma perspectiva de aumento do cultivo das áreas de trigo, com a prévia aquisição de insumos pelos produtores. De acordo com Schwerz, nesse ano, em função dos altos custos para implantação das lavouras, principalmente, frente ao cenário de escassez de fertilizantes, de produtos químicos, como é o caso do glifosato e de outras moléculas, os produtores estão procurando práticas de manejo, que visam a redução de custos e até mesmo a utilização de algumas possibilidades que estão na região, como é o caso da cama de aviário e os dejetos líquidos de suínos.

3ª safra

Outra opção para o período é a 3ª safra, um conceito que já está sendo trabalhado pela Embrapa, para que os produtores aproveitem o período outonal, agregando na cobertura do solo, ao mesmo tempo em que a planta está produzindo grãos ou fitomassa. “Podemos atuar em diferentes segmentos, como produção de grãos, com culturas como cevada, trigo, triticale, para fitomassa destinada à alimentação os animais, e somados a elas, centeio e aveia, para silagem; ou até mesmo um pré-secado ou feno, então, todo esse material pode ser aproveitado e convertido em leite. Também é uma ótima fonte de renda e ainda a terceira opção, que é a questão da cobertura e a proteção do solo, melhorando e agregando qualidade”.

Projeto

A Emater está desenvolvendo, junto à Embrapa, um projeto na região, que visa avaliar o potencial do uso de diferentes espécies nessa 3ª safra. “Algumas delas são trigo, triticale e cevada. Depende muito das condições climáticas do ano, do período de implantação, que não pode ser tão tarde. A exemplo disso também, a Emater já desenvolveu na safra 2020/2021 e agora está repetindo na safra 2021/2022, um trabalho com a cultura do sorgo granífero e do sorgo para silagem. Esses dois materiais também estão se comportando de uma maneira muito interessante, produzindo grão e massa para a produção de silagem”.

Sorgo

O sorgo é um material que tem alta rusticidade, tolera melhor a estiagem, tem um sistema radicular muito agressivo e também alto potencial produtivo. “Na safra passada, chegamos a colher na nossa região, em algumas áreas, até 100 sacas de sorgo por hectare, com baixo custo de investimento. E esse sorgo pode ser utilizado na alimentação dos animais na propriedade rural ou até mesmo comercializado na nossa região. São várias alternativas que o produtor tem e o principal objetivo é manter o nosso solo coberto ao longo dos 365 dias do ano, com plantas sendo cultivadas, eliminando o risco da erosão e mantendo a ciclagem de nutrientes no solo. Plantas em desenvolvimento mantêm os nutrientes que o solo possui em um processo de ciclagem, e alimentam os microrganismos, melhorando a qualidade química, física e biológica do solo”, finaliza.