A pandemia do novo coronavírus trouxe muita preocupação e mesmo prejuízos em escala mundial. Entretanto, não são todos os segmentos que amargam resultados negativos.  No setor de grãos, por exemplo, há uma expectativa positiva para a safra gaúcha 2020/2021 de trigo. Em virtude do aumento de 40% no consumo de pão no Brasil, devido ao período de distanciamento social, o país vai precisar de mais matéria-prima.

Somada a essa dinâmica, a Rússia e a Ucrânia, que são produtores do grão, estão enfrentando dificuldades climáticas. A Argentina deverá ampliar o fornecimento do produto para outras regiões do mundo, e o Brasil vai precisar buscar trigo nos EUA para fomentar a produção nacional. Essa é a análise do gerente regional da Emater/RS-Ascar de Frederico Westphalen, Luciano Schwerz.

– Os agricultores tiveram uma quebra na safra de soja, e precisam diluir os custos fixos, buscando alternativa de renda. Segundo a Biotrigo, pela demanda de sementes certificadas por multiplicadores, a área tende a crescer entre 15% e 20% em relação ao ano anterior. No Paraná e Santa Catarina terão acréscimo de 5% –, estima Schwerz. Em março, antes do início da pandemia, a previsão da Biotrigo apontava um crescimento de 10% na área dedicada ao grão em lavouras gaúchas.

Segundo o gerente regional da Emater/RS-Ascar, outro aliado a esta projeção é o preço praticado na região, que chega a casa dos R$ 50. Em 2019, nos 42 municípios de abrangência da regional, foram cultivados 87.506 hectares de trigo. “Para 2020, a tendência é de que a área passe dos 100 mil hectares, um aumento entre 15% e 20%, e que será consolidada até o final de maio, quando ocorre a abertura da janela de plantio para a região”, projeta.

Cuidados

Com expectativa de chuva pouco abaixo da média e temperaturas amenas no inverno, Schwerz alerta para que os agricultores redobrem a atenção quanto ao Zoneamento de Risco Climático (Zarc). “Assim, o produtor garante que sua lavoura seja implantada em um período de menor risco de ocorrência de geadas, nas etapas críticas à cultura, como emissão da espiga, floração e fase inicial do enchimento de grãos”.

Outra observação importante diz respeito às práticas de manejo, visando à garantia de melhores resultados na produção. “Em meio a um grande complexo de doenças e pragas que atingem a cultura, os principais problemas remetem ao nanismo amarelo da cevada VNAc, que é um vírus transmitido, em especial, pelo pulgão e que, em geral, atinge as lavouras ainda nas primeiras fases do ciclo”, detalha.

Outra doença é o oídeo, que tem capacidade de adequação e resistência a certos fungicidas. “Em anos mais secos e com temperaturas amenas há uma probabilidade desta doença se manifestar com mais incidência, especialmente, nas cultivares que não possuem níveis de resistência”, pontua. Já a giberela tem causado maior preocupação e perda de qualidade nas lavouras de trigo, em especial, pela sua associação com os níveis de micotoxinas. “Os grãos contaminados podem inviabilizar a industrialização do trigo. Para isso, o melhoramento genético busca soluções integradas, no entanto, o uso de produtos químicos tem gerado bons resultados”, frisa.