Quer cena mais típica de filme do que um encontro no cinema? Foi assim que Vilma Levy, hoje proprietária do Cine Globo de Frederico Westphalen, conheceu seu marido Roberto Levy (em memória) e juntos deram sequência a uma história de paixão pela sétima arte, lutas e conquistas em busca da realização de sonhos que não eram só deles.

Apesar de ser natural de Três de Maio, Vilma viveu quase toda a sua trajetória em Santa Rosa, cidade onde concluiu sua graduação em Letras. Era 1978 e a jovem estudante já frequentava o cinema da cidade, uma de suas grandes paixões. Naquela época ela provavelmente não imaginava como a escolha de assistir a um filme em uma tarde qualquer mudaria seus passos dali pra frente. “Foi ali que eu conheci o Roberto”, revela.

— A tradição era assim: domingo a gente almoçava e corria fazer fila na porta do cinema, porque lotava—, relembra.
Foi por perceber que ela e as amigas estavam sempre no cinema que Roberto, dono do cinema em Santa Rosa, ofereceu uma cortesia para o grupo. Após conversarem e se conhecerem melhor, como em um estalo, característico dos filmes de romance, a paixão marcou território na vida do casal. Foi ali, na sala de cinema, que os dois se conhecerem e juntos passaram a escrever um novo roteiro. 

O amor compartilhado 

Em 1984, o casal juntou as alianças e estrelou, oficialmente, essa história de amor. Os dois fixaram residência em Três Passos, onde um dos cinemas da família sempre existiu, e ali deram sequência à vida. “No lado dele eu sempre trabalhei, cuidava da bilheteria, do barzinho, ajudava na produção de textos, tudo que precisava”, diz Vilma.

A paixão pelos filmes uniu o casal por uma vida e o companheirismo foi a base para uma trajetória de persistência e sucesso. O Cine Globo, que hoje conta com cinemas em Três Passos, Santa Rosa, Palmeira das Missões e Frederico Westphalen (inaugurado na última semana), enfrentou dificuldades como qualquer outro negócio, mas foi pelo amor da família ao empreendimento que a empresa rompeu as barreiras do tempo, se adaptou às novas tecnologias e seguiu em tela.

Após os anos de ouro do cinema, a chegada do DVD e principalmente das tecnologias de imagem, como o 3D, abalaram os negócios do cinema. “O pessoal queria ver novidade, iam para as Capitais e queriam assistir em 3D. Foi aí que meu filho veio e disse para o pai: acho que vamos ter que dar essa cartada”. 

Como uma última esperança para continuar com as portas abertas, a família decidiu investir na nova tecnologia. A primeira praça a receber a tecnologia foi a de Santa Rosa, um sucesso. “A gente se encantou! Conseguimos pagar nossas contas, remodelamos o espaço de Três Passos e investimos em Palmeira das Missões”, afirma. 

Em 2016, o cinema de Três Passos acompanhou a primeira sessão de filme em 3D. “Essa é uma história de luta. Tudo foi construído com dificuldade, tijolo por tijolo”, conta Vilma, que abraçou a paixão do marido e junto com ele trouxe ainda mais cultura para a região. No último ano, Roberto Levy faleceu, deixando uma trajetória de trabalho duro, determinação e um legado inspirador ligado à arte e à cultura. Ele é a inspiração dos filhos e a força propulsora para o negócio seguir iluminando rostos.

O Cine Globo

Ainda em 1924, quando Alberto Abrahão Levy visitava Paris juntamente com sua família, que o empreendedor abriu seus olhos para a potencialidade da sétima arte como negócio, o que até então não passava de uma paixão. Anos se passaram e em 1954, foi inaugurado o primeiro Cine Globo, em Três Passos. Desde então, a empresa foi administrada pelo filho, Roberto Levy, que deu sequência ao amor e ao trabalho de uma vida do pai. Após seu falecimento, em dezembro do último ano, os filhos de Roberto continuam dando vida à obra e aos sonhos de seu fundador. É justamente isso que faz a experiência do Cine Globo ser tão memorável.  

Lembranças de Ouro

Entre as lembranças que dona Vilma carrega com ela de uma vida que acompanhou as mais diversas fases da sétima arte, ela relembra da época onde até mesmo a pipoca demandava criatividade para ser feita.

No início, por falta de recursos, a pipoqueira era um sonho distante, realidade somente nas Capitais. “Meu marido sempre falou que queria muito ter aqui”, divide Vilma. Isso até a chegada dos primeiros micro-ondas. O aparelho foi a solução para a demanda. A família começou timidamente com um até ter quatro micro-ondas em produção para atender os clientes.

— Hoje nós temos uma pipoqueira que podemos colocar um quilograma de pipoca. E assim começamos, com um micro-ondas até conseguir realizar o que sonhamos—.
Dona Vilma foi professora por muitos anos e sempre considerou a arte do cinema como uma ferramenta de educação e cultura. As sessões nunca foram superficiais para ela. Sempre atenta aos detalhes, fazia diferentes leituras das obras cinematográficas. 

— O cinema é cultura. Ele instiga as pessoas. Na minha época a gente ficava tentando descobrir como os filmes eram feitos, a gente não tinha acesso como é hoje, a gente ficava imaginando. Você ia assistir a um filme e era como se estivesse sonhando—, detalha. 

Hoje o cinema é administrado pelos filhos Roberto Levy Filho, Luis Alberto Levy e Sara Raquel Levy. O negócio, que tem como estrela a cultura, é capaz de proporcionar diferentes experiências e emoções ao público e tem ainda mais significado para a família, que construiu junto tudo isso. “Essa paixão que eu criei na minha adolescência segue até hoje. Cada vez que entro na sala, as emoções de pisar no cinema, de sentar na poltrona são maravilhosas”, diz Vilma.

Dica da Cinéfila

Entendedora da sétima arte, dona Vilma adora um suspense. Um romance e uma boa comédia brasileira também estão na lista!

Para você, ser Bella é?

A beleza da pessoa vem de dentro, do seu interior, da sua alma. Toda beleza da pessoa vem da alma, brota da sua bondade, da sua coragem, do bem que faz para as pessoas. Para mim, ser bela é ter uma alma boa, é saber enxergar o belo nas pessoas também. A beleza é transmitida pelo olhar das pessoas.