A representatividade feminina no meio rural está cada vez mais forte e vem ganhando espaço com o passar dos anos. Na busca por igualdade nas comunidades, Ema de Souza Mulinari, aos 77 anos, trabalha ativamente à frente da Coordenadoria das Mulheres Trabalhadoras Rurais do Sindicato dos trabalhadores Rurais de Frederico Westphalen (STR-FW)

Mulher do campo e natural de FW, Dona Ema, como é conhecida, casou-se aos 22 anos e construiu a essência familiar baseada no respeito, na cumplicidade e no amor. A educação de seus quatro filhos também é resultado da valorização do trabalho e da árdua rotina, dia após dia, de uma família de agricultores. “Em toda a minha vida tirava e vendia leite para as cooperativas e fábricas de queijo. Em uma certa época, meu marido vendia de litro em litro pela cidade, pois ainda não existia os laticínios que existiam hoje em dia”, conta dona Ema que diz ter conquistado tudo através da atividade leiteira. Uma vida formada por desafios e muita luta. Ema e seu falecido esposo, Osmar, após anos comercializando laticínios, abriram um armazém, no qual era realizada a comercialização de secos e molhados, afim de ajudar na manutenção da família. Ainda com o armazém funcionando, iniciaram a plantação de cana-de-açúcar.

Aos poucos a plantação foi avançando e a produtividade melhorando. Foi então que no inverno do ano de 2000, a família iniciou a comercialização de cachaça ou “guarapa” como era chamada na época, enquanto no verão fabricavam o suco com o caldo de cana. Com a grande procura por seus produtos, antigo armazém familiar passou a chamar-se “Caldo de Cana”, as margens da BR-386, na antiga linha Iraí, hoje conhecida como Bairro Barrilense. Atualmente o negócio é tocado pelo filho Volnei.

O comércio, que por sua vez é familiar, abriu as portas há 20 anos e vem se fortalecendo e criando suas raízes. Nos dias de hoje, o Caldo de Cana é tradicionalmente conhecido pela comunidade frederiquense e também, por viajantes que por ali passam ao longo dos dias, entre a correria dos trabalhos e uma pausa para descanso, desfrutando o melhor que o ambiente oferece, em um espaço agradável e muito aconchegante.

Mas Dona Ema, que também é mãe de Vivi, Vick e Valéria, não parou por aí. Cheia de energia, ela foi além! Cruzou os horizontes da vida no campo e conquistou o seu espaço como mulher, trabalhadora e aposentada. Com 15 minutos de programa, Ema tornou-se responsável por um programa na Rádio Luz e Alegria, intitulado “Programa do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Frederico Westphalen, com ênfase em assuntos relacionados às mulheres, aposentados e aposentadas.

– Eu amo o que eu faço, isso faz eu me sentir viva! Gosto de escutar e de estar lá aos domingos. Tenho propósitos de vida e quero passar a verdade aos meus ouvintes, tratando também sobre assuntos relacionados a saúde, o cuidado com a família e em como o sindicato pode ajudar, lembrando sempre dos direitos e deveres que os cidadãos possuem e muitos ainda não sabem –, acrescentou.

Mulher ativa, Ema é fortaleza e inspiração. Persistente, instiga as demais mulheres a conquistarem seu espaço, seus anseios, direitos e reconhecimento da profissão como trabalhadoras rurais. É sobre ter e ser independente, trabalhadora, aposentada ou idosa, seja como for, é sobre ser mulher e líder da sua própria vida.

Ser líder

Aposentada aos 55 anos, a independência começou no momento em que conseguiu se aposentar como agricultora. “Me aposentei e comecei a pensar e viver para mim”, conta com orgulho sobre a sua trajetória de vida, a qual sempre teve uma base familiar. – Eu tenho uma grande vantagem. Eu sou o que sou, por que devo muito a minha família. Os meus pais me criaram líder desde pequena. Casei com um marido que me apoiou e nunca foi contra a ideia da sua esposa ser liderança na comunidade –, prosseguiu Ema.

No STR-FW, onde se destaca por seu trabalho exercido, passou por diversas etapas e funções e carrega hoje o orgulho por diferentes trabalhos em destaque. Sua felicidade ao falar sobre a conquista da aposentadoria para os ruralistas estava estampada no rosto. Com sorriso largo e a voz carregada de emoção, Ema orgulha-se das suas responsabilidades como promotora e representante de luta pelos direitos das mulheres e homens do campo.

Lá em 1988, há 32 anos atrás, o cenário mudou com nova legislação. Com novas perspectivas, a 2ª instituição brasileira foi assinada e a aposentadoria foi conquistada. “Me emociono em lembrar por tudo o que passamos e como conquistamos a valorização do nosso trabalho, principalmente para nós, mulheres, que éramos intituladas apenas como dona de casa”, revela.

A paixão pela culinária

Em 2009, essa senhora que temos a honra de contar sua história de vida a vocês, escreveu um livro de culinária caseira, nomeado “Caderno de Receitas”, com 77 páginas e mais de 100 receitas, a ideia do livro surgiu em decorrência ao trabalho realizado com as mulheres no STR e assim, permitir que todas pudessem ter acesso a novos e diferentes sabores, com pratos especiais, regados de amor e deliciosas lembranças familiares!

Na suma do livro: “Não há quem não sinta saudades dos pratos deliciosos servidos por sua mãe ou por sua vó, porque uma das formas mais gostosas e carinhosas de relembrarmos do nosso passado é a hora da reunião da família, do prato especial servido nesta ocasião. Nos encontros, reunião de mulheres, sempre tem alguém querendo saber uma receita ou desejando passar uma receita diferente, para compartilhar sabores ou mesmo para que não se perca estas preciosidades. Foi assim, que a Comissão de Mulheres Trabalhadoras Rurais do Sindicato de Frederico Westphalen teve a iniciativa de elaborar um caderno de receitas, esperando que este sirva para melhorar ainda mais seus deliciosos momentos familiares, regados a sabores inigualáveis e ainda, lembrar que uma boa saúde depende de uma alimentação saudável. Este caderno tem objetivo valorizar as mulheres trabalhadoras rurais que muito tem contribuído para que essa entidade seja cada dia melhor, buscando sempre o bem-estar de todos”.

Além do espírito culinário, dona Ema cultiva um hobby especial: estudar plantas. “Nas minhas horas vagas eu adoro ler, mas a minha paixão é estudar as plantas medicinais. As plantas são o complemento da natureza e cada planta tem o seu princípio ativo e sabor único. Minha casa é rodeada de natureza e com isso diferentes plantas, as quais eu planto e produzo minhas receitas. É por esses motivos que eu nunca sai daqui, é aqui que eu sou feliz, esse é o meu lugar”, finalizou.

Amor próprio

A conversa seguiu leve, daquelas que te arrancam riso fácil pelo simples fato de estar em boa companhia, ah a dona Ema, tão cheia de personalidade! Conversamos sobre autoestima e amor próprio. Autoestima em seu significado configura a qualidade de quem se valoriza, se contenta com seu modo de ser e demonstra, consequentemente, confiança em seus atos e julgamentos.

– Quando realizamos os encontros com as mulheres rurais eu sempre digo: acordem de manhã, olhem para a janela, aprecie o sol e diga ‘bom dia – com vontade – que bom que estou acordada, eu preciso e eu quero ter um bom dia hoje. Cada um tem a sua crença, então entregue ao seu senhor, como quiser, mas peça um dia bom e comece o dia com autoestima, confie em você –, contou ela, que passou por tantos questionamentos e julgamentos da sociedade sobre o ‘ser livre’ e mesmo assim, nunca perdeu a sua essência.

Ema nos dá mais lições. “A primeira coisa que a pessoa tem que trabalhar é dentro dela. O seu interior, se conhecer, parar e pensar, o que eu sou? O que eu quero pra mim? É isso que eu estou fazendo, o que eu preciso melhorar? Eu acho que se nos conhecermos dentro de nós e se amar em primeiro lugar, podemos ir a qualquer lugar e distribuir afeto. Ame a si mesma, se reconheça como a principal pessoa da sua vida e, a partir desse amor que tu tens, poderá dar aos outros. Você só pode dar amor, carinho, compreensão, amizade e sorrisos se você está bem consigo mesma. É isso que eu sempre digo para as mulheres, se revistam de amor, se revistam de qualidade, sejam humildes, reconheçam seus erros e vá em busca do seu melhor, todos os dias”.

“Se revista de amor”. Uma passagem tão simples e ao mesmo tempo, carregada de significados. É com essas palavras, que dona Ema se reconstrói e se reveste dela mesma, por amor...