Adoecer faz parte da vida. Mais cedo ou mais tarde, acontecerá com todos nós. Nem precisa ser uma doença grave. Mesmo o envelhecimento normal traz limitações que temos que nos adaptar. Após termos vivido a maior parte de nossas vidas sem qualquer restrição e sem termos que “me preocupar em me cuidar”, será que estaremos preparados quando chegar nossa vez?

As doenças crônicas, sejam elas quais forem, são o resultado de um processo longo de adoecimento. Mesmo que de forma imperceptível, aquela “plaquinha de gordura” nas artérias do coração, aquele “pneuzinho” no abdome, a glicose alterada, o nódulo no pulmão do tabagista, aquele “desânimo ou canseira” da depressão e aquele “nervosismo” da ansiedade vão crescendo vagarosamente ao longo de anos. Ninguém se torna hipertenso, diabético, obeso, deprimido ou ansioso de um dia para o outro.

Alterações bioquímicas no organismo já estão presentes muitos anos antes que o diagnóstico da doença crônica seja formalmente estabelecido pelo médico. Quando os sintomas surgem, eles são o resultado de um longo desequilíbrio na fisiologia do nosso corpo. O mesmo ocorre com os cânceres, que podem evoluir por anos até que sejam descobertos somente em estágio bastante avançado. Embora a prevenção e a detecção precoce do adoecimento sejam possíveis, são frequentemente negligenciadas por muitas pessoas. O resultado desastroso é o diagnóstico tardio, quando complicações já aconteceram.

A cronificação dessas doenças e o retardo no tratamento torna a recuperação muito mais difícil. E é exatamente aí, no momento em que a instabilização acontece, que os pacientes e seus familiares correm para encontrar uma solução imediata. O problema é que, quanto mais longa for a evolução da doença, mais complexo será seu tratamento. Medicamentos ou procedimentos cirúrgicos mais simples não poderão ser realizados ou não surtirão efeito. Será necessária uma combinação de estratégias de tratamento, com modificações do estilo de vida e múltiplos remédios, muitas vezes mais caros e com mais efeitos colaterais, para que se alcance a melhora desejada.

Entretanto, a impaciência e a pressa são os inimigos mais ferozes na atualidade. Nem os pacientes e tampouco seus familiares compreendem que melhorar leva tempo. E muito, muito tempo. E dá trabalho, muito trabalho. Exige disciplina, persistência e motivação. Não há como um “remedinho” qualquer baixar a pressão arterial e a glicose ou melhorar os sintomas depressivos/ansiosos num passe de mágica, após anos de adoecimento. Não há como “uma dieta milagrosa” fazer emagrecer de forma saudável e sustentada a longo prazo. A urgência, a pressa e a impaciência são obstáculos para um tratamento bem sucedido.

As trocas de medicamentos e de médicos um após o outro dificilmente terão um resultado satisfatório a longo prazo. “Vassoura nova varre bem”, já diziam nossas avós. Manejar doenças crônicas é como correr uma maratona e não uma corrida de 100 metros. O “cavalo paraguaio” geralmente não chega ao final. Portanto, quando seu médico lhe pedir para ser paciente, espere. Esforce-se. Insista. Não desista. Após algum tempo, a recompensa virá. Você irá melhorar. E, o mais importante, os resultados serão duradouros.

Sobre o profissional

Dr. André Andrighetto é Médico do Coração, graduado em Medicina pela Fundação Faculdade Federal de Ciências Médicas de Porto Alegre (FFFCMPA); fez residência em Clínica Médica, no Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA-UFRGS) e residência em Cardiologia, no Instituto de Cardiologia do Rio Grande do Sul (IC-FUC). Tem título de Especialista em Cardiologia pela Sociedade Brasileira de Cardiologia em 2003 e é pós-graduado em Psiquiatria, pelo Centro Brasileiro de Pós-graduações (CENBRAP) e Faculdades Unidas do Norte de Minas (FUNORTE).